O trabalho no mundo do emprego

Hoje, estávamos eu e mais alguns transeuntes discutindo sobre questão de faculdade, currículo, emprego, até que uma das pessoas envolvidas falou "ah, eu sou da área de jornalismo, é uma área onde você só trabalha/prospera se tiver QI (quem indica)". Mas, será isso verdade?

O networking é sim, uma parte muito importante de uma boa carreira profissional, mas não é o único (nem o mais importante) fator dessa conta. O fator mais importante eu explicarei com dois conceitos, o conceito de “trabalho” e de “emprego”.

"Trabalho" e "Emprego" são dois termos que em muitos casos, apontam para a mesma coisa. Mas eles não são iguais. Um trabalho não é necessariamente um emprego, e um emprego não é necessariamente um trabalho. Este segundo caso é o que se vê com maior freqüência no mercado hoje em dia.

Um emprego é aquilo que requer tempo, e te retorna com dinheiro. Um trabalho é aquilo que requer tempo, dedicação e esforço, e te retorna com prazer, e talvez com dinheiro. Empregos tendem à estagnação, trabalhos tendem à excelência. Vale notar que excelência, neste contexto, não tem implicação nenhuma em dinheiro.

Voltando para o caso do nosso amigo jornalista, quantos desses profissionais da área possuem um emprego, e quantos deles possuem um trabalho? Eu poderia afirmar, sem dados para cobrir minha afirmação, que a grande maioria, com ênfase em grande, está presa em um emprego. Estas pessoas estão destinadas ao fogo do inferno à estagnação, e ficarão paradas, insatisfeitas, até chegar o momento onde provavelmente elas irão procurar por outra maneira de serem medíocres: concursos públicos, mas chegaremos nessa parte depois.

Por outro lado, os profissionais que levam o jornalismo como trabalho (citarei para este exemplo jornalistas que cuidam da criação de textos jornalísticos. Eu sei que o jornalismo não é só isso, mas para esta argumentação, servirá) são jornalistas 24h por dia, pensam na área, vivem, sentem o jornalismo, e o mais importante: sentem prazer. Esse tipo de pessoa escrevem textos fora do horário de trabalho, lêem textos de outros jornalistas, procuram entender o estilo de cada um deles, e procuram trazer características e boas práticas para o próprio texto.

Em outras áreas, estes são o tipo de profissional que cria campanhas de marketing falsas para aplicar e entender certos conceitos, que divulgam ilustrações e fotografias em sites como o DeviantArt, que desenvolvem softwares de código aberto, que qualquer pessoas podem utilizar, que criam músicas gratuitas em sites como Jamendo, que divulgam vídeos no Youtube e no Vimeo, escrevem textos em Creative Commons… A lista é grande, mas toda ela possui um elemento em comum: a gratuidade. Todo o material feito por essas pessoas podem ser vistos e consumidos gratuitamente. Essas pessoas fazem essa material por pura paixão pelo que fazem, e não se importam se não receberem nada por isso. Em alguns casos, essas pessoas até trabalham na área, mas fazem coisas gratuitas para poderem relaxar, sem requisitos, sem The Boring Part of The Job™.

Os empregados, por outro lado, estão cansados de suas áreas, se convenceram que o ideal é mesmo fazer o que se dá dinheiro, fazer o seu próprio e ser pago por isso. Eles aceitam o trabalho, mesmo quando acham que está tudo errado, não procuram melhorar o ambiente em que trabalham, as metodologias e práticas desse ambiente. O fantasma da demissão os assustam, e o que os atraem mais para um emprego não é a paixão, vontade, o interesse com o que se vai trabalhar. É o salário e a “estabilidade”.

A “estabilidade” é o passo final da estagnação. É a condição ideal para uma pessoa que nunca vai crescer, e irá passar o resto da vida recebendo o dela, sem medo de demissão, e sem obrigação de fazer um trabalho espetacular. A mediocricidade chegou em um lugar que ela não é mais um problema específico, mas sim lugar comum. Existem pessoas com trabalho no ambiente público?

Sim, e assim como no ambiente privado, são as pessoas que mantém a roda rodando, e se destacam, indo em direção à ponta da pirâmide. Para existir um topo, o resto da pirâmide sempre estará lá, e as pessoas com emprego servem de apoio para as pessoas com trabalho.

Leitura complementar: http://www.slideshare.net/seatecnologia/sem-tesao-nao-ha-solucao